Há mais de 200 anos, Sergipe estava no centro da luta pela Independência. O general francês Labatut escolheu Laranjeiras para montar seu quartel e decidir o futuro do Brasil.
Sergipe viveu um capítulo decisivo da história nacional em outubro de 1822, quando o francês Pedro Labatut, veterano das Guerras Napoleônicas e das rebeliões na América, transformou Laranjeiras em base de operações do chamado Exército Pacificador. Àquela altura, a antiga capitania, criada em 1590 e recém-autônoma desde o decreto de 08/07/1820, ainda lidava com tensões entre grupos favoráveis ou contrários à emancipação definitiva do Brasil.
Convidado pelo príncipe regente D. Pedro e pelo ministro José Bonifácio, Labatut fora nomeado brigadeiro em 03/07/1822. Poucos dias depois, em 14 de julho, embarcou com 18 oficiais e 260 soldados na fragata União, duas corvetas — Maria Glória e Liberal — e no brigue Reino Unido. Em Recife, reforçou a tropa com mais 250 pernambucanos, somando pouco mais de 500 homens que, ao fim de agosto, desembarcaram em Maceió.
A simples notícia da aproximação causou reação imediata em Sergipe. Em Vila Nova (atual Neópolis), defensores da recolonização reuniram artilharia e forças baianas para impedir a passagem.
“A notícia de sua chegada em Alagoas espalhou-se em Sergipe e fez reunir em Villa Nova os adeptos do partido recolonizador, que lhe ofereceram uma atitude hostil e ameaçadora”
Com o bloqueio, Labatut estacionou em Penedo, atravessou sertões alagoanos e, quando percebeu que Vila Nova havia aclamado D. Pedro I em 02/10, avançou sem combate pelo território sergipano, negociando alianças com proprietários rurais.
Nesse ínterim, o capitão-mor de Itapicuru, João Dantas, articulava, no sul da província, adesões à “Sagrada Causa do Brasil”, movimento que abriu caminho para a chegada do general francês. Ao chegar a Laranjeiras, Labatut instalou o quartel e recebeu apoio de lideranças locais.
“A cidade apresentou muitos filhos para a defesa da Independência do Brasil e abrigou em seu seio durante 22 dias o grande general Pedro Labatut, quem muito concorreu para a Emancipação de Sergipe”
O governador Pedro Vieira de Melo, que desde 19/03/1821 comandava a província, transferiu a sede do governo de São Cristóvão para Laranjeiras, cercando-se dos senhores de engenho da Cotinguiba. A presença de Labatut dissolveu resistências.
“Com habilidade, Labatut soube convencer os sergipanos a acatarem suas determinações, fazendo, porém, sentir que, se encontrasse resistência, os obrigaria à força das armas”
Para manter o exército, o brigadeiro requisitou o chamado Fundo dos Ausentes, confiscou bens de portugueses que haviam deixado a região e solicitou doações de comerciantes e proprietários. No ato solene de 12/10, dia do aniversário de D. Pedro, declarou réus de lesa-pátria quatro influentes moradores e utilizou os bens deles para abastecer a tropa.
A passagem de Labatut por Laranjeiras fortaleceu a posição do Império no Nordeste e marcou o processo que viria a consolidar a autonomia sergipana. Dois séculos depois, pesquisadores destacam que o episódio aproximou a população local dos ideais de independência, ao mesmo tempo em que revelou as disputas políticas e econômicas da região.
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